"Para mim, os fatos nus e crus não significam nada. O que importa é o que contêm ou o que acarretam; e depois verificar o que há por trás disso e por trás disso de novo até o fundo definitivo que nunca poderemos tocar", diz o narrador do conto Matías, o Telegrafista.
Hoje fui presenteada com o conto "Um sonho realizado", do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994). Em uma atmosfera onírica, o desafio de representar um sonho banal de uma estranha mulher é vivido por dois amigos que se vêem herdeiros da síntese de uma vida. E este último ritual, em um leito de morte disfarçado de arena, romperá as barreiras entre viver e narrar.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
Fragmento das teses de Benjamin Sobre o Conceito de História
2ª tese:
"O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera."
"O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera."
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Pequenos gestos resistentes
Pina Bausch depois de uma aula sobre "Diário de um ano ruim", de Coetzee, produz um efeito estético incrível.
sábado, 9 de janeiro de 2010
Nota sobre caligrafia - artigo de Umberto Eco na Revista da Cultura (ed. 28/nov 09)

A arte perdida da caligrafia - Umberto Eco
"A arte da caligrafia nos ensina a controlar nossas mãos e encoraja a coordenação mão-olho.
O artigo de três páginas apontava que a escrita a mão nos obriga a compor a frase mentalmente antes de escrevê-la. Graças à resistência da caneta e do papel, somos forçados a parar para pensar. Muitos escritores, embora acostumados a escrever no computador, algumas vezes até preferem imprimir letras em uma placa de argila, porque assim podem pensar com mais calma." (p.29)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Antes da tempestade
1h30 da madrugada, o céu soluçando luz, prepara-se para a tempestade.
Sedenta, observo a noite pela janela do meu apartamento.
Em seguida, entro na cozinha pra tomar água.
Ao levantar o copo, sou invadida por um odor forte. Ele exala da minha mão direita. A quem eu a teria estendido?
Num só golpe, o cheiro sobe até a cabeça. Estou preenchida dele. O odor é franco, oco e cortante.
Feito bolha sinto-me inflar enquanto a pele estica. Ocupo toda a cozinha, sentindo a pressão das paredes.
Memórias vêm em estalos e lançam-me para outros lugares. Todos eles imensos, velhos, pálidos e quase imóveis. Neles os indivíduos não se cruzam, seus corpos desnudos revelam o peso da gravidade, seus olhares se perdem e as vozes desencontradas apenas ecoam. O único ponto de contato entre nós é o cheiro cortante.
De repente minhas memórias são interrompidas por vozes arranhadas que invadem a cozinha.
"Não é de agora, vem de m u i t o tempo", diz uma delas.
E continua: "Mãe, cadê sua camisola? A senhora não pode andar sem camisola pela casa."
A mãe: "Não me enche o saco. Era só o que me faltava."
A filha: "A senhora não sabe mais o que faz. Onde colocou minha carteira de cigarros? Eu não aguento mais isso."
O interfone silencia. Sinto-me murcha sobre as pernas pesadas. O cheiro se esvai.
Olho para o copo d'água vazio e penso que o cheiro era de abandono.
A chuva começa e, entorpecida de sono, sou carregada para cama.
Sedenta, observo a noite pela janela do meu apartamento.
Em seguida, entro na cozinha pra tomar água.
Ao levantar o copo, sou invadida por um odor forte. Ele exala da minha mão direita. A quem eu a teria estendido?
Num só golpe, o cheiro sobe até a cabeça. Estou preenchida dele. O odor é franco, oco e cortante.
Feito bolha sinto-me inflar enquanto a pele estica. Ocupo toda a cozinha, sentindo a pressão das paredes.
Memórias vêm em estalos e lançam-me para outros lugares. Todos eles imensos, velhos, pálidos e quase imóveis. Neles os indivíduos não se cruzam, seus corpos desnudos revelam o peso da gravidade, seus olhares se perdem e as vozes desencontradas apenas ecoam. O único ponto de contato entre nós é o cheiro cortante.
De repente minhas memórias são interrompidas por vozes arranhadas que invadem a cozinha.
"Não é de agora, vem de m u i t o tempo", diz uma delas.
E continua: "Mãe, cadê sua camisola? A senhora não pode andar sem camisola pela casa."
A mãe: "Não me enche o saco. Era só o que me faltava."
A filha: "A senhora não sabe mais o que faz. Onde colocou minha carteira de cigarros? Eu não aguento mais isso."
O interfone silencia. Sinto-me murcha sobre as pernas pesadas. O cheiro se esvai.
Olho para o copo d'água vazio e penso que o cheiro era de abandono.
A chuva começa e, entorpecida de sono, sou carregada para cama.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
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