segunda-feira, 4 de maio de 2015

O corpo do tempo - sobre mostra “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo”, de Adrián Montenegro


Abertura da Vitrine 2015 no .Aurora
O espaço .Aurora abre nesse sábado, dia 09/05, sua Vitrine pela primeira vez no ano. O primeiro artista a ocupar o espaço no ano de 2015 é o colombiano Adrián Montenegro, selecionado por chamada pública.
Com “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo” Adrián cria mecanismos que nos rementem à memória e a contagem do tempo. Uma instalação de 365 lápis de cor, cada um com sua respectiva inscrição de dia e mês, dialoga com os desenhos feitos com eles, encontrados dentro da mapoteca.
O trabalho ainda conta com o acompanhamento da gestora e artista Lilian Maus, que além de integrar o juri de seleção do Vitrine 2015, estabeleceu um diálogo com o artista do qual originou um vídeo e um texto.

https://vimeo.com/126053505

Serviço:
Vitrine 2015 : Adrián Montenegro
curadoria Lilian Maus
Abertura Sábado 09/05 às 14h
Até 06/06
Visitação Sextas das 14h às 19h ou com agendamento
Rua Aurora, 858, 1ºandar, República, São Paulo
f +55 11 3337-6738

 
O corpo do tempo


“Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa,
pois fazíeis o próprio tempo.”1


Adrián Montenegro, colombiano residente em São Paulo, inaugura o projeto Vitrine 2015 com a exposição “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo”. O artista, com um humor delicado, herdado tanto de sua cidade natal Pasto, como de suas leituras de comics, apresenta uma instalação composta por desenhos e objetos que exploram graficamente o espaço interno e externo das gavetas de uma mapoteca, fazendo-nos ir e vir de cenas da memória.
 
Primeiro ato:
Cena I:
Nosso olhar percorre o trajeto construído por uma coleção que ordena 365 lápis de cor, conectando-os uns aos outros em arranjos articulados por fitas adesivas. Cada um deles traz uma inscrição de um dia e mês particular, o que faz com que atuem como um calendário sem ano determinado. Aos nossos olhos, o conjunto remete a um animalzinho estranho. Seria ele uma espécie de Odradek? O notável personagem criado por Franz Kafka, cuja natureza e função são indecifráveis, costuma atiçar a curiosidade das crianças e dos adultos durante suas aparições nos recantos das casas de família. Diante desse enigma, nosso ímpeto é dirigir-lhe perguntas muito simples, tais como: quem és? Para onde vais? O que te trouxe? Até quando permanecerás? Em resposta, o pequeno ser em formato de carretel, cujas linhas se enredam em pedaços sustentados por hastes de uma estrela quebrada, silencia feito a madeira que parece revesti-lo. Outras vezes, ele, mesmo que sem pulmões, ri ou solta sussurros de folhas secas.
Certo é que tanto Odradek como a pequena criatura de Adrián não nos oferecem respostas precisas. Ambos os experimentos artísticos provocam torvelinhos que nos fazem retornar às questões fundamentais, despertando os olhos vívidos da nossa criança adormecida. As respostas, então, com sorte, podem brotar como palpitações que florescem ao longo das estações de uma vida.
Cena II:
Continuamos a investigar a criaturinha, impelidos agora também a farejar os mistérios guardados no interior da mapoteca vermelha sobre a qual ela se sustenta. As gavetas nos trazem desenhos em papel, realizados com traços leves e coloridos, onde Adrián figura o irrisório e decalca aquilo que, por tantas vezes, é esquecido em nossos armários ou descartado de nossa memória. Desses conjuntos de objetos representados saltam de dentro de uma das gavetas 60 bolas de meias desenhadas. Por um instante, é possível retornar à nossa própria aurora, quando ainda aquelas mãos pequeninas e delicadas lançavam-se inteiras a vasculhar os esconderijos da nossa casa da infância.
A aventura atraente e deliciosa de mergulhar a mão dentro dessas bolsas de meias é belamente descrita no texto “Armários”, de Walter Benjamin, em Infância berlinense por volta de 1900. Quando criança, Benjamin se deixa levar pelo prazer, ao deslizar os dedos em direção às profundezas das bolsinhas, até tocar a massa lanosa alojada ao fundo. Ao puxar esse “trazido junto”2, acontecia algo surpreendente: o conteúdo desaparecia! E, assim, a superfície e o avesso tornavam-se ainda uma terceira coisa: o par de meias por ele já conhecidas.
Na obra de Adrián, essas experiências são resgatadas através da linha singela do desenho que captura objetos fugazes. Cildo Meireles, em entrevista a Frederico Morais, fala do desenho como “algo tão frágil e veloz como um beija-flor”3. Nesse sentido, ordenados em coleções, os desenhos de Adrián buscam suspender o tempo, fazendo-nos questionar a natureza paradoxal do arquivo que, ao passo que armazena e organiza a nossa memória, também faz com que percamos as coisas guardadas de vista. O fato é que a memória não pode ser traçadas sem o borrão do esquecimento.

Segundo ato:

Cena Final:
Mas do que, afinal, é feito o tempo? De Passado, de presente e de futuro? Talvez fosse melhor falarmos de “presente do passado”, “presente do presente” e “presente do futuro”, como sugere Santo Agostinho. Em matéria de tempo, avistamos memórias e esperanças eternamente sob a névoa do presente. O teólogo do séc. IV vê o tempo como uma espécie de reação, convulsão a esse princípio de eternidade. É uma maneira com a qual a realidade pode ser percebida por nós de um modo palpável e divisível, sendo ela regida pela alternância entre a vida e a morte. E o nosso tempo aqui é curto!
Durante a vida, é preciso reinventar e sincronizar constantemente os nossos relógios, como o faz Adrián Montenegro em sua obra, generosamente, exibida à público no espaço independente .Aurora. 
 
1 AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 322
2 Em alemão, a expressão utilizada “Mitgebrachte” também pode ser traduzida como “tradição”.
3  MEIRELES, Cildo: Algum desenho (1963-2005). Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2005. Catálogo de exposição, p.56.





terça-feira, 10 de março de 2015

MONUMENTO VIVENCIAL, do Osmar Dillon

Hoje me deparei com os registros do projeto MONUMENTO VIVENCIAL, do Osmar Dillon:

um espaço na forma de um grande cone em espiral em que o caminhante segue rumo ao SUBSOLO, da luz à escuridão, até se deparar com a palavra SÓ e voltar a superfície em caminho inverso e acabar na luz externa.

"Era uma linguagem balbuciando, vinda de quase nada para deixar a semente."


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Mucugê - Cemitério Bizantino

 

Da cidadezinha de Mucugê avisto a montanha que brilha junto àqueles que habitam o sono eterno.
É no pé deste rochedo cinzento que brota esta outra Mucugê ainda mais diminuta, uma delicadeza em estilo bizantino e gótico. Ela é toda branca, feito as nuvens que tenta abraçar. Alva a ponto de alfinetar os olhos de seus transeuntes. Suas casinhas têm arestas imprecisas e arredondadas que marcam os limites do que os olhos, imunes à morte, não podem focar. Por um instante, esqueço que o tempo existe e me deixo flutuar nesta atmosfera luminosa que obriga o olhar a se voltar para dentro e o corpo, a levitar entre rochedos.
Essas moradas se erguem do branco dos ossos dos garimpeiros que seguiram viagem, dos filhos que fugiram dos braços das mães que choram, dos velhos que cumpriram seu destino, dos amantes que agora só flertam em sonho.
Atrás do véu da saudade, as duas Mucugês convivem em um diálogo silencioso, lembrando aos vivos e aos mortos que estamos apenas de passagem e lançando-nos a promessa de um encontro possível entre os beijos das rochas e das nuvens.









Mucugê e a escrita branca sobre branco

"Mais um instante só... E rompe-se o véu...A terra...O que é da terra...Ao céu...ao que é do céu! "

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Lilian Maus: vontade de nomeação - texto crítico de Marcelo Campos



A quem cabe nomear e classificar a paisagem? Toda paisagem se faz na relação de seus componentes e o grande desafio é perceber, separar, ordenar algo que nos impele na sua totalidade. A paisagem, segundo Cauquelin, é um imperativo: “olhe isto, é uma paisagem!” e, nesta qualidade, temos que “ver o que está diante de meus olhos”. Lilian Maus (RS), na exposição “Landscape ou anotações sobre o que escapa” se empenha em nomear a paisagem. Assim, vai indiciando morfologicamente fenômenos naturais como nuvens, marés, estrelas, arco-íris. Tal dedicação gera desenhos, vídeos, fotografias, onde o que nos é familiar, corriqueiro, como o hábito de desenhar em cadernos infantis, se torna um advento. A observação de aviões da esquadrilha da fumaça, no ar, merecerá, com isso, destaque. Mas qual será a imagem a qual poder-se-á atribuir um nome? A arte, há muito, se utiliza de subterfúgios para associar sensações, movimentos, tensões a nomes, como se tratássemos de características da sua fisicalidade. Dizemos que uma pintura tem ritmo, uma fotografia vibrações, uma cor é cítrica. Mas esses termos não são da natureza daquelas matérias. Lilian Maus, nos trabalhos atuais, lança-se à possibilidade de predicar a arte. Sim, a arte precisa de predicados, como nos esclarecera Marcel Duchamp, Arthur Danto, entre outros. E a artista lança-se à tarefa dos nefelibatas, aqueles que vêem coisas em nuvens.


No intervalo entre nomeação e imagem, Lilian Maus cria séries predicativas: as estrelas são do mar, cadentes, pertencem ao caderno escolar, são vistas na superfície das lagoas. Mas do que estamos diante? A produção de Maus atenta-se, sobretudo, ao desenho, à possibilidade de observar no estriado da imagem, um mar revolto, ou de perceber que a liquefação de uma cor pode configurar uma imagem impactante, como um arco-íris. E assim, a arte de Lilian Maus vai se configurando entre imagens e nomeações, matérias e alterações. Nos trabalhos apresentados, segundo a artista, tudo começa com a “observação do vento em fricção com as nuvens”. Lilian vê coisas em nuvens. E depois traça a mesma observação junto ao mar. Mas, em tudo, o vento é protagonista. O vento, aquilo que pode promover a transubstanciação, fazer as coisas se transformarem. E o estado da matéria, ao qual a artista se dedica, está exibido como imagem. Com isso, uma outra pergunta sobrevém. Do que é feita a imagem? Antes de tudo, como nos esclarecem Hans Belting e Jean Luc-Nancy, de rastros, vestígios. E agora entendemos o porquê das marcas que Lilian Maus insiste em nos ofertar. Tais rastros, marcas exibem-se antes da possibilidade de tornarem-se signo. E a artista é consciente de que a imagem exerce poder antes de qualquer sentido. Por isso, o nome das coisas funciona como uma espécie de acordo, a palavra escrita, a exigência de credibilidade. 


O lugar ao qual a arte de Lilian Maus se dedica permanecerá em suspensão, insular, desertificado, qual as imagens do cosmos que são calculadas, numeradas, nomeadas, mas que “ostentam sempre uma falsa evidência fotográfica”, como afirma Belting. O fato é que “imagem e signo ou palavra continuam ainda a ser os pilares em tudo o que queremos compreender do mundo”.
Marcelo Campos (RJ)

Landscape ou anotações sobre o que escapa

 
Lilian Maus convida à contemplação das paisagens que escapam
Landscape ou anotações sobre o que escapa é a exposição individual que a artista radicada em Porto Alegre leva para o Recife, a partir do dia 18 de novembro.


Desenhos, fotografias e vídeos compõem a exposição individual Landscape ou anotações sobre o que escapa, que a artista Lilian Maus leva para a cidade do Recife no próximo dia 18 de novembro, no Centro Cultural Benfica/IAC – UFPE, onde foi contemplada com o 10 prêmio no Edital de Cultura/Artes Visuais 2013/2014 PROXT-UFPE. Residente em Porto Alegre (RS), onde é co-gestora do Atelier Subterrânea, Lilian apresenta seus trabalhos mais recentes e nos convida a contemplar e nomear aquilo que está diante de nossos olhos: paisagens que estão sempre além da janela, a escapar de nossas mãos.
Desenhos são apresentados em pequenas coleções que registram fenômenos naturais, como a força do vento medida pelo mar, a formação de nuvens, de arco-íris ou ainda, as estrelas que saltam dos céus em direção ao caderno infantil e ao jardim. Associado a cada imagem há sempre um nome, uma definição, como pilares escorregadios para compreensão do mundo que nos cerca.
Nos vídeos, o que vemos são armadilhas para capturar o que está sempre a se perder diante de nós: uma linha de fumaça feita por um avião que corta o céu, uma casa que o vento apaga com areia, armadilhas para capturar os voos de pássaros e insetos ou uma nuvem em repouso. O avesso de um outdoor transforma-se em paisagem escrita pelo tempo, uma lápide encontrada ao acaso torna-se um poema-concreto e desenhos bronzeados vão reagindo à luz e desertando ao longo da exibição.
Além da mostra, Lilian ministrará a oficina “O desenho em livro de artista”, nos dias 18 e 19 de novembro, das 14h às 18h. A iniciativa, como o nome se explica, traz a temática do desenho sobre livros de artista e também uma palestra, em que fala sobre seu processo de criação e sua pesquisa de doutorado, da qual resultaram esses trabalhos.

LILIAN MAUS
Nascida em Salvador/BA (1983), a artista vive e trabalha em Porto Alegre, onde é co-gestora do Atelier Subterrânea, e em Osório, onde possui atelier próprio. Formou-se no Bacharelado em Artes Plásticas: Habilitação Desenho e na Licenciatura em Artes Visuais no Instituto de Artes da UFRGS, onde concluiu também o Mestrado em História, teoria e Crítica da Arte. Atualmente é Doutoranda em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS.

Contatos:
Telefone (81) 3237.0657

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Eros ronda a produção artística de Amélia Brandelli e Cláudia Barbisan

 

OBSCENIDADES PARA DONAS DE CASA
Exposição de Amélia Brandelli e Cláudia Barbisan
Curadoria de Lilian Maus

A mostra Obscenidades para donas de casa, que ocorre de 26 de abril a 30 de maio de 2014, no Atelier Subterrânea (Av. Independência, 745/Subsolo), integra o projeto Atelier como espaço de conversa, contemplado pelo Prêmio Mulheres nas Artes Visuais, da Funarte em parceria com o Ministério da Cultura e a Secretaria de Políticas para as Mulheres. A proposta curatorial parte do desafio lançado às artistas de refletir sobre o erotismo que atravessa e irrompe o desejo de produzir arte, a partir do olhar sobre objetos que remetessem ao seu universo feminino particular.
O título da exposição é uma livre adaptação do conto Obscenidades para uma dona de casa, de Ignácio de Loyola Brandão, em que a rotina de uma dona de casa é quebrada pela chegada de cartas eróticas de um admirador secreto. Ao final da história, essas cartas revelam-se objetos de um jogo criado por ela própria. Às vezes, é algo estrangeiro e inédito que desperta nosso desejo, outras, são aqueles objetos mais próximos, guardados em lugares da memória para o qual somos arremessados quando menos esperamos. O processo artístico não deixa de ser também um jogo com Eros, que na mitologia grega é um deus com a força de unir, juntar os diferentes, representado também pelo cupido.
Na mostra, o jogo afetivo é o alvo: tanto no recorte das obras, como ao propor um diálogo bem-humorado entre duas artistas que tem um forte elo de amizade. Amélia resgata um objeto da memória que lhe é caro: o tetrápode – ou seria uma mulher de pernas abertas? A imagem lhe remete à infância nos molhes da praia do Cassino, em Rio Grande. Esse objeto de desejo/desenho está materializado nas obras. Cláudia, por sua vez, cria um jogo pictórico no entorno doméstico, dessacralizando os espaços de representação da pintura e do corpo nu. Suas pinceladas engolem com apetite voraz as superfícies de panos de prato, cartas eróticas ou livros de história da arte, num jogo de prazer que funde e transfigura imagens.
Lilian Maus – Porto Alegre, 26 de abril de 2014.