terça-feira, 4 de novembro de 2014

Lilian Maus: vontade de nomeação - texto crítico de Marcelo Campos



A quem cabe nomear e classificar a paisagem? Toda paisagem se faz na relação de seus componentes e o grande desafio é perceber, separar, ordenar algo que nos impele na sua totalidade. A paisagem, segundo Cauquelin, é um imperativo: “olhe isto, é uma paisagem!” e, nesta qualidade, temos que “ver o que está diante de meus olhos”. Lilian Maus (RS), na exposição “Landscape ou anotações sobre o que escapa” se empenha em nomear a paisagem. Assim, vai indiciando morfologicamente fenômenos naturais como nuvens, marés, estrelas, arco-íris. Tal dedicação gera desenhos, vídeos, fotografias, onde o que nos é familiar, corriqueiro, como o hábito de desenhar em cadernos infantis, se torna um advento. A observação de aviões da esquadrilha da fumaça, no ar, merecerá, com isso, destaque. Mas qual será a imagem a qual poder-se-á atribuir um nome? A arte, há muito, se utiliza de subterfúgios para associar sensações, movimentos, tensões a nomes, como se tratássemos de características da sua fisicalidade. Dizemos que uma pintura tem ritmo, uma fotografia vibrações, uma cor é cítrica. Mas esses termos não são da natureza daquelas matérias. Lilian Maus, nos trabalhos atuais, lança-se à possibilidade de predicar a arte. Sim, a arte precisa de predicados, como nos esclarecera Marcel Duchamp, Arthur Danto, entre outros. E a artista lança-se à tarefa dos nefelibatas, aqueles que vêem coisas em nuvens.


No intervalo entre nomeação e imagem, Lilian Maus cria séries predicativas: as estrelas são do mar, cadentes, pertencem ao caderno escolar, são vistas na superfície das lagoas. Mas do que estamos diante? A produção de Maus atenta-se, sobretudo, ao desenho, à possibilidade de observar no estriado da imagem, um mar revolto, ou de perceber que a liquefação de uma cor pode configurar uma imagem impactante, como um arco-íris. E assim, a arte de Lilian Maus vai se configurando entre imagens e nomeações, matérias e alterações. Nos trabalhos apresentados, segundo a artista, tudo começa com a “observação do vento em fricção com as nuvens”. Lilian vê coisas em nuvens. E depois traça a mesma observação junto ao mar. Mas, em tudo, o vento é protagonista. O vento, aquilo que pode promover a transubstanciação, fazer as coisas se transformarem. E o estado da matéria, ao qual a artista se dedica, está exibido como imagem. Com isso, uma outra pergunta sobrevém. Do que é feita a imagem? Antes de tudo, como nos esclarecem Hans Belting e Jean Luc-Nancy, de rastros, vestígios. E agora entendemos o porquê das marcas que Lilian Maus insiste em nos ofertar. Tais rastros, marcas exibem-se antes da possibilidade de tornarem-se signo. E a artista é consciente de que a imagem exerce poder antes de qualquer sentido. Por isso, o nome das coisas funciona como uma espécie de acordo, a palavra escrita, a exigência de credibilidade. 


O lugar ao qual a arte de Lilian Maus se dedica permanecerá em suspensão, insular, desertificado, qual as imagens do cosmos que são calculadas, numeradas, nomeadas, mas que “ostentam sempre uma falsa evidência fotográfica”, como afirma Belting. O fato é que “imagem e signo ou palavra continuam ainda a ser os pilares em tudo o que queremos compreender do mundo”.
Marcelo Campos (RJ)

Landscape ou anotações sobre o que escapa

 
Lilian Maus convida à contemplação das paisagens que escapam
Landscape ou anotações sobre o que escapa é a exposição individual que a artista radicada em Porto Alegre leva para o Recife, a partir do dia 18 de novembro.


Desenhos, fotografias e vídeos compõem a exposição individual Landscape ou anotações sobre o que escapa, que a artista Lilian Maus leva para a cidade do Recife no próximo dia 18 de novembro, no Centro Cultural Benfica/IAC – UFPE, onde foi contemplada com o 10 prêmio no Edital de Cultura/Artes Visuais 2013/2014 PROXT-UFPE. Residente em Porto Alegre (RS), onde é co-gestora do Atelier Subterrânea, Lilian apresenta seus trabalhos mais recentes e nos convida a contemplar e nomear aquilo que está diante de nossos olhos: paisagens que estão sempre além da janela, a escapar de nossas mãos.
Desenhos são apresentados em pequenas coleções que registram fenômenos naturais, como a força do vento medida pelo mar, a formação de nuvens, de arco-íris ou ainda, as estrelas que saltam dos céus em direção ao caderno infantil e ao jardim. Associado a cada imagem há sempre um nome, uma definição, como pilares escorregadios para compreensão do mundo que nos cerca.
Nos vídeos, o que vemos são armadilhas para capturar o que está sempre a se perder diante de nós: uma linha de fumaça feita por um avião que corta o céu, uma casa que o vento apaga com areia, armadilhas para capturar os voos de pássaros e insetos ou uma nuvem em repouso. O avesso de um outdoor transforma-se em paisagem escrita pelo tempo, uma lápide encontrada ao acaso torna-se um poema-concreto e desenhos bronzeados vão reagindo à luz e desertando ao longo da exibição.
Além da mostra, Lilian ministrará a oficina “O desenho em livro de artista”, nos dias 18 e 19 de novembro, das 14h às 18h. A iniciativa, como o nome se explica, traz a temática do desenho sobre livros de artista e também uma palestra, em que fala sobre seu processo de criação e sua pesquisa de doutorado, da qual resultaram esses trabalhos.

LILIAN MAUS
Nascida em Salvador/BA (1983), a artista vive e trabalha em Porto Alegre, onde é co-gestora do Atelier Subterrânea, e em Osório, onde possui atelier próprio. Formou-se no Bacharelado em Artes Plásticas: Habilitação Desenho e na Licenciatura em Artes Visuais no Instituto de Artes da UFRGS, onde concluiu também o Mestrado em História, teoria e Crítica da Arte. Atualmente é Doutoranda em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS.

Contatos:
Telefone (81) 3237.0657

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Eros ronda a produção artística de Amélia Brandelli e Cláudia Barbisan

 

OBSCENIDADES PARA DONAS DE CASA
Exposição de Amélia Brandelli e Cláudia Barbisan
Curadoria de Lilian Maus

A mostra Obscenidades para donas de casa, que ocorre de 26 de abril a 30 de maio de 2014, no Atelier Subterrânea (Av. Independência, 745/Subsolo), integra o projeto Atelier como espaço de conversa, contemplado pelo Prêmio Mulheres nas Artes Visuais, da Funarte em parceria com o Ministério da Cultura e a Secretaria de Políticas para as Mulheres. A proposta curatorial parte do desafio lançado às artistas de refletir sobre o erotismo que atravessa e irrompe o desejo de produzir arte, a partir do olhar sobre objetos que remetessem ao seu universo feminino particular.
O título da exposição é uma livre adaptação do conto Obscenidades para uma dona de casa, de Ignácio de Loyola Brandão, em que a rotina de uma dona de casa é quebrada pela chegada de cartas eróticas de um admirador secreto. Ao final da história, essas cartas revelam-se objetos de um jogo criado por ela própria. Às vezes, é algo estrangeiro e inédito que desperta nosso desejo, outras, são aqueles objetos mais próximos, guardados em lugares da memória para o qual somos arremessados quando menos esperamos. O processo artístico não deixa de ser também um jogo com Eros, que na mitologia grega é um deus com a força de unir, juntar os diferentes, representado também pelo cupido.
Na mostra, o jogo afetivo é o alvo: tanto no recorte das obras, como ao propor um diálogo bem-humorado entre duas artistas que tem um forte elo de amizade. Amélia resgata um objeto da memória que lhe é caro: o tetrápode – ou seria uma mulher de pernas abertas? A imagem lhe remete à infância nos molhes da praia do Cassino, em Rio Grande. Esse objeto de desejo/desenho está materializado nas obras. Cláudia, por sua vez, cria um jogo pictórico no entorno doméstico, dessacralizando os espaços de representação da pintura e do corpo nu. Suas pinceladas engolem com apetite voraz as superfícies de panos de prato, cartas eróticas ou livros de história da arte, num jogo de prazer que funde e transfigura imagens.
Lilian Maus – Porto Alegre, 26 de abril de 2014.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Trabalho na Desvenda , Cinco Años Sin Perder la Ternura.


Abertura: 14 e 14 de dezembro de 2013, até 21 de dezembro de 2013.
Espaço Guarda-Chuva (Rua Lavradio, 141, São Paulo/SP)


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Interseção: mostra de Diego Passos e Marília Bianchini




O vácuo é tão concreto quanto os corpos sólidos.” (Lucrécio, De rerum natura)


A mostra “Interseção”, de Diego Amaral e Marília Bianchini, com curadoria de Lilian Maus, parte da intenção, como o título indica, de exibir os pontos em comum entre duas linhas recentes de produção artística que, por caminhos distintos, reforçam os estados experimentais da fotografia. O resultado desse encontro é uma sintonia inusitada entre imagens ambivalentes. Enquanto Diego Amaral ocupa o chão da sala principal, evocando o peso e a opacidade da imagem, a partir da associação de pedras a autorretratos em escala natural, Marília Bianchini ressalta o imaterial, ao trazer a leveza e a transparência em suas fotomontagens de varais de roupas suspensas por delicados alfinetes nas paredes da galeria. Na sala cilíndrica, os artistas exibem um projeto inédito realizado em co-autoria, partindo da ideia do instantâneo na fotografia, além disso, são apresentados trabalhos individuais anteriores no hall de entrada.

Na mostra, o gesto presente na captura, edição e apresentação de imagens ganha evidência. A partir dele, os artistas convidam-nos a perceber a fotografia não apenas como índice do real, mas como espaço de experimentação artística. Nos trabalhos de Marília e Diego o suporte fala, ele informa, remetendo-nos à consistência das coisas. Se os resultados dos trabalhos apontam, com uma ironia melancólica, para grandezas distintas dos corpos como o peso e a leveza, a opacidade e a transparência, talvez o nosso desafio enquanto espectadores seja mantermo-nos dispostos a oscilar entre os opostos, como se pudéssemos, durante a exposição, levitar entre os rochedos.

Lilian Maus
Porto Alegre, janeiro de 2011
Espaço Cultural ESPM






Diálogos com Daniel Jacobino em 'sem titulo (hotel hilton)'

 
instalação
379 cartões de visita do artista, alfinetes, compensado (116x176cm)
É uma leitura da face da Cidade - as fachadas são a pele das ruas. É o que 
se vê e a vista só se lhe altera em ideia o que se opõe a concretude (peso) 
do de que é feito a cidade. 
A cidade é o grande engenho da sociedade que ocorre hoje. Minha visão 
reordena este caco em uma nova paisagem - desta vez composta da imagem 
sobre o frugal (leve) cartão de visitas. O que se oferece a um estranho? 
Muito prazer. 
Daniel Jacobino
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É uma leitura da face da Cidade - as fachadas são a pele das ruas. 
Esta cidade multifacetada funciona como motivo para a estamparia. Se no 
cotidiano da cidade as fachadas são um campo de luta entre o público e o 
privado, nos postais apresentados por Daniel Jacobino, todo e qualquer conflito 
é filtrado pelo efeito caleidoscópio. 
É o que se vê e a vista só se lhe altera em ideia o que se opõe a concretude 
(peso) do que é feito a cidade. 
Já dizia Guy Debord, em “A Sociedade do espetáculo”, que “Nosso tempo, sem 
dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, 
a aparência ao ser...” Fazendo alusão ao espetáculo, fragmentos de fachadas de 
concreto compõem um arquivo de imagens com as quais Daniel constrói, com 
ironia, novos padrões geométricos que fluem desligados de cada aspecto da vida. 
A cidade é o grande engenho da sociedade. Minha visão reordena este caco 
em uma nova paisagem – desta vez composta da imagem sobre o frugal 
(leve) cartão de visitas. O que se oferece a um estranho? Muito prazer.
 Lilian Maus
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CONVITE OFICIAL

Convidamos todos para o último dia da exposição -ar-qui-pe-la-go-, a primeira individual em São Paulo da dupla Miniatura (Bruna Canepa e Ciro Miguel), que também está participando da X bienal de arquitetura.

O dia é ainda mais especial porque o Daniel Jacobino fará a abertura de sua intervenção na Vitrine com a obra “Sem titulo (hotel Hilton)” e ainda presenteiará os visitantes com pequenos cartões, que poderão ser levados por todos. A intervenção conta ainda com a participação de Lilian Maus (do Atelier Subterrânea, Porto Alegre, RS) com um texto-diálogo com o artista.

Esperamos vocês, a partir das 14h!

.Aurora

R. Aurora, 858, 1o andar - a 100m da estação república (saída R. do Arouche)

sábado, 31 de agosto de 2013

Exposición Dónde el dibujo germina? - Lilian Maus en Punta del Este/Uruguay


Inaugura no dia 6 de setembro, sexta-feira, a exposição “Onde o desenho germina?”, de Lilian Maus, artista codiretora do espaço artístico independente Atelier Subterrânea (Porto Alegre). A mostra acontece no Centro Cultural Kavlin, em Punta del Este, Uruguay, e pode ser visitada até o dia 5 de outubro.Na abertura, a artista participa de uma conversa com o público, a partir das 21h, momento em que também ocorre a distribuição dos catálogos.

 Fotos no Flickr: http://www.flickr.com/photos/lilianmaus/sets/72157635032492992/

“Onde o desenho germina?” apresenta os caminhos do desenho na produção recente de Lilian Maus. Nos trabalhos, a artista mescla imagens e palavras em obras sobre papel, em fotografias e instalações que geram um jardim metafórico a ser visitado pelo espectador. Na série “Área de cultivo”, por exemplo, manchas, fungos e outras culturas nos recordam o modo como seus desenhos, pouco a pouco, fecundam e germinam a folha do papel. O que a artista põe em relação são esses processos ao acaso que formam a periferia de nossa atenção e que ela transforma em ação e determinação. Um trabalho simples que a arte busca nos fazer perceber: por vezes algo do tempo se condensa em nós, se materializa, pesa e desaparece. Haverá também uma fala com a artista na abertura e distribuição de catálogos ao público.

“Onde o desenho germina?”, de Lilian Maus
Abertura: 6 de setembro, 21h
Local: Centro Cultural Kavlin (Calderón de la Barca esq. Shakespeare. Punta del Este, Uruguay)
Conversa com artista: 6 de setembro, 21h
Encerramento: 5 de outubro de 2013
Mais info: http://www.centroculturalkavlin.org/exposiciones.html


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La exposición "Dónde el dibujo germina?", de Lilian Maus, artista brasileña codirectora del espacio artístico independiente Atelier Subterrânea (Porto Alegre) presenta los caminos del dibujo en su producción reciente. En sus trabajos, la artista mezcla imágenes y palabras en obras en papel, fotografías e instalaciones que generan un jardín metafórico a ser visitado por el espectador. En la serie "Area de cultivo", por ejemplo, manchas, hongos y otras culturas nos recuerdan el modo como sus dibujos, poco a poco, fecundan y germinan la hoja de papel. Lo que la artista pone en relación son esos procesos al azar que forman la periferia de nuestra atención, y que ella transforma en acción y determinación. Un trabajo sencillo que el arte busca hacernos percibir: por veces algo del tiempo se condensa en nosotros, se hace materia, pesa y desaparece.
Habrá charla con el artista y distribución de catálogos al público.
(Por favor, sobre la charla y distribuición de catálogos tenemos q charlar, Ignacio, para mirar fechas. Los catálogos puedo dejar en la apertura para el público o tb en la charla - puedo hacer una charla el lunes o martes, después de la apertura, no sé como se queda para el Centro Kavlin).