segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Toda novidade é esquecimento/diferimento/alteração - Paz López sobre a exposição Contiguo, de Claudia Lee e Francisca Montes, uma parceria entre Galería Metropolitana e ECARTA (Tradução: Lilian Maus)

 

A mostra Contíguo anuncia-se como um projeto das artistas visuais Claudia Lee e Francisca Montes sobre um território específico: o Parque André Jarlan, da comuna Pedro Aguirre Cerda, parque que recebeu seu nome em homenagem ao sacerdote francês, que chegou ao Chile em 1983 e tristemente foi assassinado, um ano depois, por uma bala que carabineiros lançam aos ares em meio a uma invasão da população de La Victoria. A bala atravessa a parede de madeira da casa paroquial e atinge diretamente o pescoço de Jarlan. O sacerdote morre com a bíblia entre as mãos.
Nenhuma das obras que compõem Contíguo aludem a essa gélida cena gore, e não o fazem porque tanto Montes como Lee optam por ingressar nesse território desde uma particular estrangeiridade. Foi Barthes quem reconheceu no olhar do estrangeiro a possibilidade de uma particular revolução dos signos, uma proteção deliciosa frente aos tópicos da nossa cultura paterna, um espécie de tremor ou uma sacudida. Como estrangeiras, e não como turistas, então, as artistas enfrentam esse território que traz também o emblema do grande pesadelo do Chile.

Contíguo não é um nome que busca reconciliar alternativas artísticas singulares, mas, sim, que procede mantendo o produtivo abismo que existe entre as paixões formais e visuais de Montes e Lee. Se tivéssemos que reconhecer um princípio de vizinhança, este estaria ao lado de um trabalho sobre o olhar que implicasse uma leitura do território associando o aéreo e o terrestre, respectivamente.
Claudia Lee percorre a cidade como se tivesse um tamanho de um pequeno animalzinho, atenta aos rumos dos objetos diante do tempo, da negligência ou do próprio ciclo da natureza que se acumula sobre as superfícies que examina. São objetos, à primeira vista, mudos, austeros, insignificantes, que tão somente a menção da palavra “arte” ou “política” bastaria para ruborizá-los. Caixas de vinho e leite, garrafas de água mineral, estrume de coelho, papéis que um andarilho descuidado perdeu ou deixou cair de suas mãos. No entanto, a qualidade  cromática e o paciente trabalho que Lee opera sobre esses objetos acrescenta aos amontoados que conformam esta mostra um suplemento de afeto que gera a ilusão de se tratar de peças únicas: objetos comuns que falam em um código íntimo, objetos pedestres manipulados com extrema delicadeza.


Assim, leva ao cúmulo do esteriótipo – a fazenda colonial da caixa de vinho,  o copo da caixa de leite, a Cordilheira dos Andes da garrafa de água que a artista enquadra e exibe – e a série de estrume de coelho depurada das mazelas e amontoadas de volta em uma pilha; a reprodução em série de um papel encontrado ao acaso; os moldes de uma fonte de água construídos em gesso. Lee satura de signos o espectador; porém, o faz resistindo à iconicidade e à logotipia que portam. O que resulta é uma complexa máquina  memorativa, como se o trabalho de arte fosse, antes de tudo, uma operação de transposição das formas de um registro ao outro, a elaboração de um material preexistente.
Em El sueño de don Bosco – o título da obra já alude ao aspecto de hieróglifo que porta – os objetos são submetidos a uma dupla operação: substituição e analogia. Objetos então recíprocos, conversos, correspondentes entre si. Os amontoados funcionam como uma cadeia simbólica –sem princípio nem fim- que permitem passar de uma imagem à outra por meio da semelhança, tornando visível os traços de atualidade e anacronismo, de originalidade e remissão que porta, simultaneamente, todo objeto da cultura. Afinal, como produzir uma diferença onde o que existe é subordinação e parasitismo das formas? O trabalho de Claudia Lee nos confronta com a dimensão política que atravessa todo ato da memória. Nela coexistem a economia da acumulação e da variação e é do choque de ambas que se desperta a faísca vital.


Francisca Montes ensaia em Halo 5 uma variação do que vem explorando em seus últimos trabalhos: o olhar aéreo do território como método privilegiado de conhecimento. Com um dron, uma câmera de vídeo e os artefatos lumínicos que simulam uma pista de aterrissagem, Montes se adentra no Parque André Jarlan e o que nos traz de volta é um registro em três telas desse sobrevôo. Uma viagem de exploração do mundo cotidiano que se torna assim, singularmente, estranho. Shklovski dizia que a tarefa da arte consiste em “darmos uma sensibilidade para o objeto, uma sensibilidade que é ver, e não um mero reconhecer”. Se a imagem área desestabilizou o enquadramento retangular da pintura que organizava um olhar vertical e horizontal, o que nos oferece, então, é uma realidade sem ponto fixo, sem ponto de vista, sem horizonte nem perspectiva. Assim são as imagens de Montes: desconcertantes e rompidas, capazes de submeter os espaços supostamente conhecidos a um estranhamento que exige do espectador um trabalho de analogia, de busca de semelhanças entre as formas, que sempre chegam com retardo. Imagens em suspensão, que não descrevem mundos imaginários nem utópicos – em nenhum lugar, em nenhuma parte – mas, sim, o comum pisado pela primeira vez.
Mediante ao olhar aéreo – que excede em potência a tudo o que pode o olho – o  mundo pode ser objeto de outro tipo de conhecimento, lá onde as imagens já não se referem somente a uma realidade pré-existente, mas, sim, às regras que se originam a partir da sua própria montagem. Porque para Montes o mundo parece ser ele mesmo um laboratório experimental, onde os acontecimentos ou territórios mais codificados ou rigidamente enquadrados estalam e, então, nos convidam a “realizar com calma viagens de aventuras entre seus escombros”, agora fragmentadas em múltiplas imagens.

Em Contíguo, tanto o olhar ao nível da terra como a visão aérea exploram um território para abrir aí um espaço de experiência que, diferentemente do olhar do turista – que consome signos já cifrados, tem a forma de uma viagem até uma proximidade desconhecida. 


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Texto Original:

Toda novedad es olvido/diferimiento/alteración - por Paz López

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La muestra Contiguo se anuncia como un proyecto de las artistas visuales Claudia Lee y Francisca Montes sobre un territorio específico: el Parque André Jarlan de la comuna Pedro Aguirre Cerda, parque que recibe su nombre en homenaje al sacerdote francés arribado a Chile en 1983 y tristemente asesinado un año después por una bala que carabineros lanza al aire en medio de un allanamiento a la población La Victoria. La bala atraviesa la pared de madera de la casa parroquial e impacta directamente en el cuello de Jarlan. El sacerdote muere con la biblia entre las manos.
Ninguna de las dos obras que componen Contiguo aluden a esta gélida escena gore, y no lo hacen porque tanto Montes como Lee optan por ingresar a ese territorio desde una particular extranjería. Fue Barthes quien reconoció en la mirada del extranjero la posibilidad de una particular revolución de los signos, una protección deliciosa frente a los tópicos de nuestra cultura paterna, un temblor o una sacudida. Como extranjeras y no como turistas, entonces, se enfrentan las artistas a este territorio que ha sido también la cifra de la gran pesadilla de Chile.

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Contiguo no es un nombre que busca reconciliar alternativas artísticas singulares sino que procede manteniendo el productivo abismo que existe entre las pasiones formales y visuales de Montes y Lee. Si tuviéramos que reconocer un principio de vecindad, este estaría del lado de un trabajo sobre la mirada que implica una lectura del territorio asociada a lo aéreo y lo terrestre respectivamente.
Claudia Lee recorre la ciudad como si tuviera el tamaño de un pequeño animalito, atenta a las rumas de objetos que el tiempo, la desidia o el propio ciclo de la naturaleza acumulan sobre las superficies que examina. Son objetos a primera vista mudos, austeros, insignificantes, que la sola mención de la palabra arte o política bastaría para ruborizarlos. Cajas de vino y leche, botellas de agua mineral, cacas de conejo, papeles que un caminante descuidado perdió o dejó caer de sus manos. Sin embargo, la cualidad cromática y el paciente trabajo que Lee opera sobre esos objetos, añaden a la ruma que conforma esta muestra un suplemento de afecto que genera la ilusión de tratarse de piezas únicas: objetos comunes que hablan en clave íntima, objetos pedestres manipulados con extrema delicadeza.
Así, en el colmo del estereotipo –la hacienda colonial de la caja de vino, el vaso de la caja de leche, la Cordillera de los Andes de la botella de agua que la artista encuadra y exhibe – y la serie -la caca de conejo depurada de malezas y vuelta a amontonar en la ruma, la reproducción en serie de un papel encontrado al azar, los moldes de una fuente de agua construidos en yeso- Lee satura de signos al espectador, pero lo hace resistiendo la iconocidad y el carácter de logotipo que portan. Lo que resulta es una compleja máquina memorativa, como si el trabajo del arte fuese ante todo una operación de transposición de las formas de un registro a otro, la elaboración de un material preexistente.
En El sueño de don Bosco -el título de la obra ya alude al carácter de jeroglífico que porta- los objetos son sometidos a una doble operación: sustitución y analogía. Objetos entonces recíprocos, conversos, correspondientes entre sí. La ruma funciona como una cadena simbólica –sin principio ni fin- que permite pasar de una imagen a otra por vía de la semejanza, volviendo visible el rasgo de actualidad y anacronismo, de originalidad y remisión que porta de modo simultáneo todo objeto de la cultura. ¿Cómo producir una diferencia donde lo que existiría es subordinación y parasitismo de las formas?  El trabajo de Claudia Lee nos confronta con la dimensión política que atraviesa todo acto de la memoria. En ella coexisten una economía de la acumulación y la variación, y en el choque de ambas se despereza su chispa vital.

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Francisca Montes ensaya en Halo 5 una variación de lo que ha venido explorando en sus últimos trabajos: la mirada áerea del territorio como método privilegiado de conocimiento. Con un dron, una cámara de video y los artilugios lumínicos que simulan una pista de aterrizaje, Montes se adentra en el Parque André Jarlan y lo que nos trae de vuelta es una registro en tres pantallas de ese sobrevuelo. Un viaje de exploración del mundo cotidiano que se vuelve así singularmente extraño. Shklovski decía que la tarea del arte consiste en “darnos una sensibilidad para el objeto, una sensibilidad que es ver, y no un mero reconocer”. Si la imagen área desestabilizó el marco rectangular de la pintura que organizaba una mirada vertical y horizontal, lo que nos ofrece entonces es una realidad sin punto fijo, sin punto de mira, sin horizonte ni perspectiva. Así son las imágenes de Montes, desconcertantes y rotas, capaces de someter los espacios supuestamente conocidos a un extrañamiento que exige al espectador un trabajo de analogía, de búsqueda de semejanzas entre las formas, que siempre llega con retardo. Imágenes en suspenso, que no describen mundos imaginarios ni utópicos –en ningún lugar, en ninguna parte- sino lo siempre igual como si fuera un espacio que se pisa por primera vez.
Mediante la mirada área –que excede en potencia a todo lo que puede un ojo- el mundo puede ser objeto de otro tipo de conocimiento, allí donde las imágenes ya no refieren solamente a una realidad preexistente sino a reglas que se originan a partir del propio montaje de ellas. Porque para Montes el mundo parece ser él mismo un laboratorio experimental, donde los acontecimientos o territorios más sobrecodificados o más rígidamente encuadrados estallan y entonces nos invita a “realizar con calma viajes de aventuras entre sus escombros” ahora desperdigados en múltiples imágenes.

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En Contiguo, tanto la mirada a ras de tierra como la visión área exploran un territorio para abrir allí un espacio de experiencia que, a diferencia de la mirada del turista -que consume signos ya cifrados- tiene la forma de un viaje hacia una cercanía desconocida.





Contíguo: dois modos de aproximação visual em torno de um relato comum - por María Jesús Montes (tradução Lilian Maus)


Texto da exposição CONTIGUO -
Francisca Montes e Claudia Lee, em uma parceria entre Galería Metropolitana e ECARTA, tradução de Lilian Maus

 

Me sinto pequena porque me esmaga a vida e os homens, entre os quais nasci.
Quero infinitude porque me afoga o finito. Nesses sublimes delírios minha alma se arranca de sua esfera e, quando volta a ela, que tortura, que ânsia de liberdade!
Quando em minhas longas noites de ausência mundana medito e converso com o Ser Supremo,
sinto que me crescem asas e que meus olhos se engrandecem para olhar a pequenez do corpo celeste.

Como meu cérebro miserável, verme invisível, tem sido capaz de imaginar possuir tudo,
desafiando à sublime grandeza
que ele não podia compreender, porque não pode conceber um pigmeu de um titã?
Teresa Wilms Montt, Diários Íntimos.
As obras que conformam Contíguo surgem como resultado da análise de campo em torno do parque André Jarland, localizado na comuna de Pedro Aguirre Cerda. Ambas obras revelam, através de sua própria linguagem, um lugar que é, ao mesmo tempo, relato de uma historia que resiste em desaparecer. Parque, canteiro, depósito, metamorfoses e coerções, às vezes frustradas, que desenham e des-desenham os limites da sua presença.
Sem fins de comparação mínima dos resultados de ambos, posso perceber dois caminhos cruzados e percorridos pela história do olhar e da percepção. Enquanto Halo 5 dialoga com olhar distanciado, a razão e o intelecto, El sueño de Don Bosco concentra-se na imanência presente no centro das coisas, dos objetos, da matéria. Desse modo, complementam-se um ao outro, transcrevendo em seu diálogo um problema que os transcendem e que colocam em relação duas maneiras de nos vincularmos com o mundo. Ao mesmo tempo, constituem nossa experiência sensível. No primeiro, nossos olhos se engrandecem para ver, a partir da distância aparente, a pequenez do corpo celeste, por meio da observação das aparências exteriores. No segundo, apreendemos a unidade oculta da matéria através do tato, imerso em suas qualidades orgânicas.


Dos conceitos até os objetos, da luz aos resíduos. 



Halo 5, todo inteligência, condensa em seu percurso um tipo de visão, o modo como nos aproximamos, desconfiados e severos, das coisas examinadas de longe, cartografando sua existência, profundidade, texturas e margens. Quem observa e compara suas forças com as de outro não chega a tocar e jamais se submerge. Como poderíamos ser capazes de distinguir suas formas se estivéssemos afogados até o pescoço nelas? Por tanto se retrai, como um pássaro de prata; que se converte em seus olhos e em sua memória, graças a ele focaliza, enquadra, examina os relevos e peculiaridades de um relato. 


A linha, elemento primário do desenho depois do ponto, projetada com luz, perfila um círculo, este torna-se visível graças à distância aérea. Seu vôo começa com o acaso, a medida em que a luz do dia se desvanece, apresenta-nos uma demarcação desenhada de maneira artificial, esse gesto comemora o relato de uma tragédia, um rito de morte que é frágil e imaterial. É o círculo um símbolo primogênito, é a forma que contém todas as formas, o símbolo do céu refletido na terra, uma manifestação arquetípica do sol. Em Halo 5, observamos um reflexo lumínico do sol que projeta sua luz invertida, sua forma surge desde baixo até em cima, produzindo uma imagem insólita e, quando chega a esse ponto, quase faz sua a frase que Goya esconde sob um de seus desenhos: “El sueño de la Razón produce monstruos” (O sonho da razão produz monstros).



El sueño de Don Bosco confronta a presença da humanidade nos vestígios precários dos seus descartes. Claudia Lee coleciona objetos pouco duráveis, impuros, nos quais se intui a ação humana de adquirir, consumir y descartar. Dispostos de tal maneira que todos eles formam um monte de diversas opacidades, no qual se destacam as cores vermelha, amarela e azul celeste. 


Algo há de devoto no gesto de selecionar e trabalhar cada peça como se fosse uma pedra valiosa, separando as impurezas delas, que põem em perigo sua transparência simbólica. Claudia as limpa, despeja e recobre fragmentos de sua iconologia para sublinhar só um elemento: a cordilheira, a fonte patronal ou o copo de leite. Sua mediocridade estética tem sido deslocada, sua condição de descarte sublimada como uma imagem devota por meio do modelado, a presença humana se torna difusa e é aí que reside sua singularidade epistemológica. Os degraus do tempo se apagaram, sua insignificância contratual com o humano mostram, em um giro poético, uma fração de nossa história sonhada durante o espaço da ação que concebeu esses objetos. Lee outorga um peso quase religioso a esses dejetos, intuindo neles a parte escura de uma narrativa nacional.


Certamente na nossa pequena complexidade pigmeia é impossível conceber titãs. Podemos refletir em torno da natureza do nosso próprio olhar. Suas rupturas, fusões e pressões prefiguram uma qualidade cindida, que é, ao mesmo tempo, óptica e háptica/tátil. Graças a ela possuímos a atitude dual de tomar distância, abrindo asas com o propósito de construirmos um olhar racional, altivo e paterno. No entanto, sob a força de nossa constituição tátil, precipitamo-nos até um universo no qual já fomos pedra, sedimento ou lava. Para apreender é também necessário ver com as mãos.


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Texto Original:
Me siento pequeña porque me aplasta la vida y los hombres entre los que  nací.
Quiero infinidad porque me  ahoga lo finito. En estos sublimes delirios mi alma se arranca de su esfera, y cuando vuelve a ella ¡qué tortura, qué ansía de libertad!
Cuando en mis largas noches de ausencia mundana medito y converso con el Ser Supremo,
siento que me crecen alas y que mis ojos se agrandan para mirar la pequeñez del orbe.
¿Cómo mi cerebro miserable, como gusano invisible, ha podido imaginar poseerlo todo,
desafiando a la sublime grandeza,
que él no podía comprenderla porque no puede concebir un pigmeo a un titán?
Teresa Wilms Montt, Diarios Íntimos.

Contiguo; dos modos de aproximación visual en torno a un relato común.

Las obras que conforman Contiguo surgen como resultado del análisis de campo en torno al parque André Jarland ubicado en la comuna de Pedro Aguirre Cerda. Ambas obras revelan, a través de su propio lenguaje, un lugar que es al mismo tiempo relato de una historia que se resiste a desaparecer. Parque, cantera, vertedero; metamorfosis y coerciones, a veces frustradas, que dibujan y des-dibujan los límites de su presencia.
Sin ánimos de comparar en lo más mínimo ambos resultados, puedo percibir dos caminos cruzados y recorridos por la historia de la mirada y la percepción. Mientras Halo 5 dialoga con la mirada desde la distancia, la razón y el intelecto, El sueño de Don Bosco se concentra en la inmanencia presente en el centro de las cosas, los objetos; la materia. De esta manera se completan la una a la otra, transcriben en su dialogo un problema que las trasciende y que se relaciona con dos maneras de vincularnos con el mundo, y al mismo tiempo constituye nuestra experiencia sensible. En el primero nuestros ojos se agrandan, para mirar desde la distancia aparente la pequeñez del orbe, a través de la observación de las apariencias exteriores y en el segundo aprehendemos la unidad oculta de la materia a través del tacto, inmerso en sus cualidades orgánicas.
De los conceptos al objeto, de la luz a los residuos.
Halo 5, todo inteligencia, condensa en su recorrido un tipo de visión, la manera en cómo me aproximo a las cosas; las examina desde lejos, desconfiada y severa, cartografiando su existencia, su profundidad, textura y margen. Es quien observa y compara sus fuerzas con las del otro, no llega a tocar, jamás se sumerge ¿Cómo podría ser capaz de distinguir sus formas si estuviera hundida hasta el cuello en ellas? Por tanto se retrae, como un pájaro de plata; quién se convierte en sus ojos y en su memoria, gracias a él enfoca, encuadra y examina los relieves y particularidades de un relato.
La línea; elemento primario del dibujo después del punto, proyectada con luz perfila un círculo, este se hace visible gracias a la distancia aérea. Su vuelo comienza en el ocaso, a medida que la luz del día se desvanece se nos presenta una demarcación dibujada de manera artificial, este gesto conmemora el relato de una tragedia, un hito de muerte que es frágil e inmaterial. Es el círculo un símbolo primigenio, es la forma que contiene todas las formas, es símbolo del cielo reflejado en la tierra, es la manifestación arquetípica del sol. En Halo 5, observamos un reflejo lumínico del sol que proyecta su luz invertida, su forma surge desde abajo hacia arriba produciendo una imagen insólita, llegado a ese punto, casi hace suya la frase que Goya esconde bajo uno de sus dibujos: El sueño de la Razón produce monstruos.
El sueño de Don Bosco, nos enfrenta a la presencia de la humanidad en los vestigios precarios de sus desechos. Claudia Lee colecciona objetos poco perdurables, impuros, en los cuales se intuye la acción humana de adquirir, consumir y desechar. Dispuestos de tal manera que todos ellos forman una cumbre de diversas opacidades, en la cual destacan los colores rojo, amarillo y celeste.
Algo hay de devoto en el gesto de seleccionar y trabajar cada pieza como si de una piedra valiosa se tratara, apartando de ellas las impurezas que ponen en peligro su transparencia simbólica; las limpia, despeja y cubre fragmentos de su iconología para subrayar sólo un elemento, la cordillera, la fuente patronal o el vaso de leche.
Su mediocridad estética ha sido desplazada, su condición de desecho sublimada cual imagen votiva por medio del modelado, la presencia humana se torna difusa y es ahí que radica su singularidad epistemológica. Se ha borrado el paso el tiempo, su insignificancia contractual con lo humano, muestran en un giro poético una fracción de nuestra historia, soñados durante el espacio de la acción que les dio existencia; Lee le otorga una pesadez casi religiosa a estos despojos, intuye en ellos la parte oscura de una narrativa nacional. 
Si bien es cierto que en nuestra pequeña complexión pigmea es imposible concebir titanes, podemos reflexionar en torno a la naturaleza de nuestra propia mirada, sus rupturas, fusiones y presiones prefiguran una cualidad escindida, que es al mismo tiempo óptica y háptica. Gracias a ella poseemos la aptitud dual de tomar distancia, desplegar alas con el propósito de hacernos con una mirada racional, altiva, paterna. Sin embargo y a fuerza de nuestra constitución táctil, nos precipitamos hacia un universo en el que hemos sido, piedra, sedimento o lava. Para poder aprehender es también necesario ver con las manos.  

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Pintura em suspensão

Quantas vezes relutamos em aceitar o fim de uma pintura, de um trabalho, de uma relação, de uma vida? Estava pintando esta tela para meu querido amigo, arquiteto talentoso, Fábio Dikesch da Silveira, mas o seu caminho foi interrompido pelo destino, lembrando que, por mais que a gente tente assumir as rédeas, a vida tem suas próprias regras, o seu próprio ritmo e os acontecimentos podem não fazer sentido. A vida apenas é.
Meu amigo, que faças uma bela passagem, com todo amor e carinho que ativaste em quem conviveu contigo. E a pintura seguirá tua, em suspensão.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

O corpo do tempo - sobre mostra “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo”, de Adrián Montenegro


Abertura da Vitrine 2015 no .Aurora
O espaço .Aurora abre nesse sábado, dia 09/05, sua Vitrine pela primeira vez no ano. O primeiro artista a ocupar o espaço no ano de 2015 é o colombiano Adrián Montenegro, selecionado por chamada pública.
Com “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo” Adrián cria mecanismos que nos rementem à memória e a contagem do tempo. Uma instalação de 365 lápis de cor, cada um com sua respectiva inscrição de dia e mês, dialoga com os desenhos feitos com eles, encontrados dentro da mapoteca.
O trabalho ainda conta com o acompanhamento da gestora e artista Lilian Maus, que além de integrar o juri de seleção do Vitrine 2015, estabeleceu um diálogo com o artista do qual originou um vídeo e um texto.

https://vimeo.com/126053505

Serviço:
Vitrine 2015 : Adrián Montenegro
curadoria Lilian Maus
Abertura Sábado 09/05 às 14h
Até 06/06
Visitação Sextas das 14h às 19h ou com agendamento
Rua Aurora, 858, 1ºandar, República, São Paulo
f +55 11 3337-6738

 
O corpo do tempo


Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa,
pois fazíeis o próprio tempo.”1


Adrián Montenegro, colombiano residente em São Paulo, inaugura o projeto Vitrine 2015 com a exposição “Homenagem a um animalzinho que ficava fingindo ser humano e inventava coisas todo o tempo”. O artista, com um humor delicado, herdado tanto de sua cidade natal Pasto, como de suas leituras de comics, apresenta uma instalação composta por desenhos e objetos que exploram graficamente o espaço interno e externo das gavetas de uma mapoteca, fazendo-nos ir e vir de cenas da memória.
 
Primeiro ato:
Cena I:
Nosso olhar percorre o trajeto construído por uma coleção que ordena 365 lápis de cor, conectando-os uns aos outros em arranjos articulados por fitas adesivas. Cada um deles traz uma inscrição de um dia e mês particular, o que faz com que atuem como um calendário sem ano determinado. Aos nossos olhos, o conjunto remete a um animalzinho estranho. Seria ele uma espécie de Odradek? O notável personagem criado por Franz Kafka, cuja natureza e função são indecifráveis, costuma atiçar a curiosidade das crianças e dos adultos durante suas aparições nos recantos das casas de família. Diante desse enigma, nosso ímpeto é dirigir-lhe perguntas muito simples, tais como: quem és? Para onde vais? O que te trouxe? Até quando permanecerás? Em resposta, o pequeno ser em formato de carretel, cujas linhas se enredam em pedaços sustentados por hastes de uma estrela quebrada, silencia feito a madeira que parece revesti-lo. Outras vezes, ele, mesmo que sem pulmões, ri ou solta sussurros de folhas secas.
Certo é que tanto Odradek como a pequena criatura de Adrián não nos oferecem respostas precisas. Ambos os experimentos artísticos provocam torvelinhos que nos fazem retornar às questões fundamentais, despertando os olhos vívidos da nossa criança adormecida. As respostas, então, com sorte, podem brotar como palpitações que florescem ao longo das estações de uma vida.
Cena II:
Continuamos a investigar a criaturinha, impelidos agora também a farejar os mistérios guardados no interior da mapoteca vermelha sobre a qual ela se sustenta. As gavetas nos trazem desenhos em papel, realizados com traços leves e coloridos, onde Adrián figura o irrisório e decalca aquilo que, por tantas vezes, é esquecido em nossos armários ou descartado de nossa memória. Desses conjuntos de objetos representados saltam de dentro de uma das gavetas 60 bolas de meias desenhadas. Por um instante, é possível retornar à nossa própria aurora, quando ainda aquelas mãos pequeninas e delicadas lançavam-se inteiras a vasculhar os esconderijos da nossa casa da infância.
A aventura atraente e deliciosa de mergulhar a mão dentro dessas bolsas de meias é belamente descrita no texto “Armários”, de Walter Benjamin, em Infância berlinense por volta de 1900. Quando criança, Benjamin se deixa levar pelo prazer, ao deslizar os dedos em direção às profundezas das bolsinhas, até tocar a massa lanosa alojada ao fundo. Ao puxar esse “trazido junto”2, acontecia algo surpreendente: o conteúdo desaparecia! E, assim, a superfície e o avesso tornavam-se ainda uma terceira coisa: o par de meias por ele já conhecidas.
Na obra de Adrián, essas experiências são resgatadas através da linha singela do desenho que captura objetos fugazes. Cildo Meireles, em entrevista a Frederico Morais, fala do desenho como “algo tão frágil e veloz como um beija-flor3. Nesse sentido, ordenados em coleções, os desenhos de Adrián buscam suspender o tempo, fazendo-nos questionar a natureza paradoxal do arquivo que, ao passo que armazena e organiza a nossa memória, também faz com que percamos as coisas guardadas de vista. O fato é que a memória não pode ser traçadas sem o borrão do esquecimento.

Segundo ato:

Cena Final:
Mas do que, afinal, é feito o tempo? De Passado, de presente e de futuro? Talvez fosse melhor falarmos de “presente do passado”, “presente do presente” e “presente do futuro”, como sugere Santo Agostinho. Em matéria de tempo, avistamos memórias e esperanças eternamente sob a névoa do presente. O teólogo do séc. IV vê o tempo como uma espécie de reação, convulsão a esse princípio de eternidade. É uma maneira com a qual a realidade pode ser percebida por nós de um modo palpável e divisível, sendo ela regida pela alternância entre a vida e a morte. E o nosso tempo aqui é curto!
Durante a vida, é preciso reinventar e sincronizar constantemente os nossos relógios, como o faz Adrián Montenegro em sua obra, generosamente, exibida à público no espaço independente .Aurora. 
 
1 AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 322
2 Em alemão, a expressão utilizada “Mitgebrachte” também pode ser traduzida como “tradição”.
3  MEIRELES, Cildo: Algum desenho (1963-2005). Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2005. Catálogo de exposição, p.56.





terça-feira, 10 de março de 2015

MONUMENTO VIVENCIAL, do Osmar Dillon

Hoje me deparei com os registros do projeto MONUMENTO VIVENCIAL, do Osmar Dillon:

um espaço na forma de um grande cone em espiral em que o caminhante segue rumo ao SUBSOLO, da luz à escuridão, até se deparar com a palavra SÓ e voltar a superfície em caminho inverso e acabar na luz externa.

"Era uma linguagem balbuciando, vinda de quase nada para deixar a semente."


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Mucugê - Cemitério Bizantino

 

Da cidadezinha de Mucugê avisto a montanha que brilha junto àqueles que habitam o sono eterno.
É no pé deste rochedo cinzento que brota esta outra Mucugê ainda mais diminuta, uma delicadeza em estilo bizantino e gótico. Ela é toda branca, feito as nuvens que tenta abraçar. Alva a ponto de alfinetar os olhos de seus transeuntes. Suas casinhas têm arestas imprecisas e arredondadas que marcam os limites do que os olhos, imunes à morte, não podem focar. Por um instante, esqueço que o tempo existe e me deixo flutuar nesta atmosfera luminosa que obriga o olhar a se voltar para dentro e o corpo, a levitar entre rochedos.
Essas moradas se erguem do branco dos ossos dos garimpeiros que seguiram viagem, dos filhos que fugiram dos braços das mães que choram, dos velhos que cumpriram seu destino, dos amantes que agora só flertam em sonho.
Atrás do véu da saudade, as duas Mucugês convivem em um diálogo silencioso, lembrando aos vivos e aos mortos que estamos apenas de passagem e lançando-nos a promessa de um encontro possível entre os beijos das rochas e das nuvens.









Mucugê e a escrita branca sobre branco

"Mais um instante só... E rompe-se o véu...A terra...O que é da terra...Ao céu...ao que é do céu! "